Tributo para uma pequena esquecida

(Wendy, na Terra do Nunca, sobre a classificação do Chile 

para a copa do mundo de 1974)

 

por Carolina Bianchi

Wendy, grávida, em uma pequena ilha, um punhado de Terra. Tudo é árido
demais.

Wendy
Todas as casas de uma avenida pegam fogo ao mesmo tempo e ficamos
estarrecidos olhando tentando entender. Estamos sempre nessa tentativa de
dar as palavras para o fogo, mas a natureza não vê qualquer moral nos
nossos códigos literários.
E tudo arde.
Palavra. Fogo. Dois países tão distantes.
O coração, como uma casa espaçosa pegando fogo.
A esperança cintilante pegando fogo.
O fogo não olha a perspectiva do mesmo enquadramento que os olhos
humanos fatigados e em exercício constante de profundo desconhecimento
da realidade. Os olhos humanos em constante exercício de apagamento das
horas do lobo do passado.

 

Por quê, de repente, os homens saíram do mar carregando todo tipo de peixe
nos braços como quem carrega a noiva imediatamente depois de uma
cerimônia de casamento, depois de um funeral?
Carregam a mulher como carregam um bagre, um balde.
Os homens andando como se nada, na direção do pântano, como se tudo já
não estivesse a perigo. Tudo acontecendo no tempo de um tiro, um tiro
calibre 38 na direção da mulher e os homens andando como se nada.

 

Qual é o ritual de sacrifício implícito na arquitetura do olhar de quem já viveu
as esperanças?
Seria a pedra um último ritual das esperanças? Qual o sentido da pedra
apertando o peito da mulher contra outra pedra e outra pedra e outra pedra e
outra pedra.

 

Qual o sentido que se come a cabeça de um alce? Como se chega no norte?
Eu não sei.

 

Qual o ensinamento que ainda não conseguimos ouvir? Eu digo porque
porque temos ouvidos muito pequenos e nossa memória é um labirinto
manchado de palavras que não se misturam com o caldo da boca.
Eu estou preocupada. Eu estou pequena demais, injusta demais, eu estou
feia demais eu estou caindo. Olhem pra mim eu estou caindo. Eu estou
caindo e perguntando ao mesmo tempo:
Como vamos salvar os amantes?
O que vamos fazer com o amor?

 

Peter Pan eu estou caindo. Você apenas aponta e ri. Peter Pan aponta a
minha barriga e ri e canta qualquer marcha dos heróis. Os heróis não podem
salvar ninguém. Os heróis são a desgraça absoluta. Os heróis apontam a
barriga da mulher com o dedo e riem alto.
Peter Pan, não posso mais voar por hora eu só consigo cair.
Há entre nós a minha barriga agora. A minha barriga e 120 filhos nessa
barriga a se alimentarem dos meus ossos. 120 dias eu sou um reservatório
agora e você ainda conserva os mesmos olhos perdidos em peixes e bolas
de futebol. Quem é o campeão? Quem vai vencer? Você provavelmente,
Peter Pam, a vitória é o cúmulo da falta de maturidade.

 

Hay toda una pequeña comunidad en mi útero ahora. Una comunidad que ya
tiene martillos y pedazos de cemento y brasas para encender el fuego. No
puedo dar cara al país que voy a dar a luz. Tal vez pueda dar a lo sumo, un
nombre.

 

O jacaré que devora o relógio consegue te devorar sendo você um homem
tão pequeno, Peter Pan? Você não tem medo de nada?
Me leva de volta. Eu imploro. Quero ver a silhueta da ilha. Quero voltar a ilha
e afundar na areia. Ficar só com os olhos para fora. A observar. Como o
jacaré no pântano. O mesmo pântano para onde marcham os heróis da
nação em suas fardas bordadas de pedaços de gente pedaços de arame
farpado de fio elétrico, suas fardas que chiram a porão, a balde, a bagre.

 

Na terra do nunca se esquece toda a barbaridade de um porão? “ Não
nascemos ficar o tempo todo no chão” você me diz, Peter Pan, e no entanto
esses pés agora pesam toneladas.

 

O fogo das ruas, o fogo da cama, o fogo daquilo que tem dentro da árvore.
Dentro da árvore tem fogo e isso já estava no primeiro manifesto pela
inocência de uma mulher que foi escrito logo após ela se perceber cercada
de grades cercada de homens tramando, cercada de horror.

 

As mulheres como retratos de noivas princesas no colo dos heróis da nação
– troféus de guerra. Quem venceu a copa do mundo nesse ano?

 

Levavam suas donzelas para debaixo da terra, no cimento que fica embaixo
da terra, sem cor, sem som. Colocavam um cão treinado a foderem as
mulheres que eram capturadas, sequestradas, arrastadas pelos cabelos.
Rapunzel, o que fazer com as tranças? Você já fodeu um cão?
Quantos dentes eu consigo contar na boca do cão nessa hora?

 

Um pai uma mãe um irmão, nada no mundo podia ajudar se eu tivesse uma
barba no lugar dos seios, se eu tivesse duas mãos dois tanques de guerra no
lugar das nádegas. Quem vai falar por mim se eu perder a língua se eu
perder o olho quem vai falar pelo meu olho? quem vai falar pelo passado?
Quem vai falar pela guerra? Quem vai cantar esse hino? Meus filhos?
120 na minha barriga de peixe.

 

Quando obrigarem a mulher com 120 bebês na barriga a ficar de joelhos a
mulher nua na maca a mulher nua tentando lembrar qualquer canção de
amor para não entrar no vórtice da avalanche, porque uma vez que se está lá
não se sabe se é possível voltar. ( toca uma música de amor, talvez Hoy
daria yo la vida)


Volta ! Volta! Volta!

Senhoras volta a coruja, volta a filha a mãe e a vó. A mulher violada na frente
do pai da mãe dos irmãos pra que eles falem. Confessem. Confessar o que?
Que sua alma a partir de agora será condenada aos piores pesadelos?
O que se afirma de fato quando os tanques vão as ruas? Quem vai dar a
penúltima palavra?


A última palavra, imaginamos qual é. Mas ninguém diz. Qual o tamanho da
coragem? Qual o tamanho da coragem na barriga da mulher? Qual o
tamanho da pantera no dorso da mulher?


Quem tem medo da pantera negra embaixo da cama? Vocês? O rabo dela
como um chicote na perna no homem que não imaginava tal desfecho.
Avancem! Mostrem as canelas. Mostrem os dentes. Eu mostro alguma
ausência dentro da boca incapaz de lembrar de qualquer sílaba que consta
no nome do semblante da tortura. Todos esqueceram. Mas a barriga da
mulher não esquece. As pegadas de alguns centímetros na barriga da mulher
vão lembrando o futuro.

 

No futuro é quase dezembro e milhares de noivas com seus vestidos brancos
vão se espalhando pelas estradas. Numa última grande performance mundial
da comunhão com o fogo. As noivas tacando fogo em tudo. Marchando na
direção da terra do nunca para acabar com todos os heróis, para chutar a
cabeça do Peter Pan como uma bola de futebol. Todas segurando tochas e
cartazes com os dizeres: “Il futuro é divanti a mé”.

 

E finalmente, ficamos frente a frente, Peter Pan. Eu e você.
Nos livramos das armas ao mesmo tempo.
A tua extinção é ainda um fogo.
Vamos terminar com um beijo.
Vamos terminar sem a mordida a mordida, é antiga demais.
Vamos dormir por anos para que a gente possa despertar e olhar o oceano
infinito. A Terra do Nunca, aonde somos do mesmo tamanho. E talvez a
gente possa inventar uma outra palavra pra espanto que não espanto.