L O B O

Teatro Oficina, 2018 

Mayra Azzi

L O B O

"Eu sou a minha coluna e a dele. A dele que eu cravo as minhas unhas, pela frente, pelas costas, e arranco a espinha, com a força de 700 cabras subindo a montanha. Eu arranco a coluna dele com as minhas mãos e agito ela no ar como se fosse uma bandeira. A minha bandeira, senhores, é toda a extensão que liga a cervical até o cu. A minha bandeira não tem nada escrito, porque se tivesse não seria em nenhuma língua desse mundo. "

[Carolina Bianchi]

Concepção, direção e dramaturgia: Carolina Bianchi
Performers: Allyson Amaral, Antonio Miano, Blackyva, Carolina Bianchi, Chico Lima, Eduardo Bordinhon, Felipe Marcondes, Gabriel Bodstein,

Giuli Lacorte, Guilherme Conrado, Gustavo Saulle, João Victor Cavalcante, José Artur Campos, Kelner Macedo, Maico Silveira, Murilo Basso, Rafael Limongelli, Rodrigo Andraeolli, Tomás Decina, Tomás de Souza e Wallace Ferreira.

Assistência de direção: Joana Ferraz, Marina Matheus e Debora Rebecchi
Produção: AnaCris Medina e Lu Mugayar
Som: Joana Flor
Luz: Alessandra Domingues
Operação de luz: Lui Seixas
Pesquisa de trilha sonora: Carolina Bianchi
Fotos: Mayra Azzi
Vídeos: Fernanda Vinhas e Aline Belfort
Efeitos: Gustavo Saulle
Objetos de cena: Tomás Decina, Rafael Limongelli e Nelson Feitosa
Figurinos: Antonio Vanfill e Carolina Bianchi

Produção executiva: AnaCris Medina e Lu Mugayar
Distribuição/Produção internacional: Metropolitana Gestão Cultural – Carla Estefan
Direção de produção: Jasmim Produção Cultural
Comunicação: José Artur Campos

 

CAROLINA BIANCHI divide a cena com mais 16 performers do sexo masculino. LOBO acontece em uma sequencia de ações que evocam, através de imagens e  mitologias, algumas relações entre feminino e masculino, olhando para o passado histórico dessas relações e perguntando-se sobre possíveis novos pactos entre os sexos. LOBO mergulha em sentidos como a paixão desenfreada, o sacrifício, a morte - em encontro com o imaginário de artistas mulheres de muitos tempos como Mary Shelley e Artemisia Gentileschi, não para elucidar tramas que permeiam as relações entre sexos até hoje, mas antes, olhar para a tragédia das experiências do afeto entre os sexos com violência, ternura e humor. 

   LOBO é um trabalho que tem agregado muita gente desde sua estreia em 2018 no Teatro de Contêiner em São Paulo. Sua equipe é formada por 25 pessoas, além de outros artistas que já atuaram no trabalho no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, cidades nas quais a peça foi apresentada depois de uma imersão na residência A Rebelião de Artemísia com artistas locais. Agrega gente também em sessões lotadas desde sua estreia em São Paulo, e nas curtas temporadas em teatros como Teatro Oficina (São Paulo), Teatro São Pedro (Porto Alegre), Centro Cultural Banco do Brasil e Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro).

Performers residentes Rio de Janeiro: Aron Moraes, Blackyva, Carlos Bruno, Elias de Castro, Felipe Barros, Filipe Felix, Guilherme Conrado, Hugo Costa, Igor Bahia, Leonardo Bianchi, Lucas Sereda, Maruan Sipert, Venâncio Cruz & Wallace Ferreira.

 

Performers residentes Porto Alegre: 
 

"Só é possível mergulhar no amor se houver em si um espaço para estar absolutamente vulnerável diante do fogo.

   Não me atrevo a pensar uma vida sem homens. E ao mesmo tempo me atrevo a ter desejos de cortar suas cabeças e arrancar-lhes os intestinos como uma vingança. Uma vingança que eu nem mesmo sei onde começa e onde termina. Talvez no dia que a mulher se atreveu a dizer.

   Não se pode dizer sem que isso acorde não um, mas dois vulcões, não se pode dizer sem que isso deixe 17 mil cadáveres pelo chão.

   Amo os homens com loucura e digo que estaria disposta a morrer por cada um deles. Digo a isso aos 16, às vezes 30 performers que me acompanham em LOBO.

   Em cena transamos com agonia e obsessão. Todos os sentidos primordiais de uma existência que contém no futuro os olhos da infância." [Carolina Bianchi]

I

Um dia eu estive diante de um quadro que se chamava Giaele e Sisara (1620) da pintora barroca italiana Artemisia Gentileschi. No quadro ela retrata segundos antes do assassinato do coronel Sisara pelas mãos de Giaele, que vingará seu povo contra o general tirano. Giaele Segura um martelo no alto com a mão direita, e com a mão esquerda apóia uma estaca contra a têmpora de Sisara que dorme profundamente. A mulher mata o homem enquanto ele está dormindo. A mulher não parece ter qualquer remorso no semblante, apenas uma coragem. Como desejar aos homens que encontrem esse descanso profundo, entre as dobras de um outro corpo de homem, olhando seus irmãos na terra de tão perto que o amor se torna quase insuportável? A vingança é o descanso depois de uma longa corrida segurando cacos de vidro contra o peito. É no descanso que está a angústia do sexo. É no descanso que está a vingança indolor.

 

II

A poesia á a continuação da guerra por outros meios.

Não há mortos.

Todos ressuscitam.

 

Há poucos anos entrei em contato com a poesia de Emily Dickinson, americana que viveu no séc. XIX e passou grande parte da sua vida no seu quarto escrevendo poemas que são pequenos enigmas do seu pensamento obsessivo sobre a morte, a natureza, partes do corpo desmembradas pelo amor e pela dúvida. "A madame de Sade" de Amherst, como a chama Camille Paglia, se tornou para mim uma viagem sem volta na escrita. Queria encenar obras como Emily escreve sua poesia. Inexplicáveis, e que contenham palavras que possam cortar a lâmina de uma espada. Para isso, não haveria outra possibilidade a não ser estar implicada no que escrevo, materializando as palavras através da minha boca, essa boca tão difícil. Matar simbolicamente um grupo de homens e ressuscitá-los ao mesmo tempo. Com a poesia de Emily Dickinson sobre a verdade e a beleza, a verdade é a morte. Essa que é, talvez, a única verdade da aventura humana. E a beleza, essa pureza insuportável. "O artista deve buscar a beleza para nos torturarmos intimamente" diz Angelica Liddell. "Tudo parece um exorcismo destinado a fazer fluir nossos demônios", escreve Artaud. 

A poeta não tem sexo definido. Emily é a paisagem, uma arma carregada. Amar uma arma carregada é muito difícil.

 

III

Quando Mary Shelley escreveu Frankenstein, mostrou imediatamente seu manuscrito ao seu marido, Percy Shelley. Ele se entusiasmou pela história mas disse que achava que no lugar de um monstro, a criatura que Viktor traz a vida em uma experiência de galvanismo deveria ser um anjo e trazer esperança aos leitores. Mary, nessa altura, após o luto tremendo de perder uma filha em uma relação que incluía traições e desconfiança do seu futuro literário, pergunta a ele como poderia escrever sobre uma criatura perfeita se ao seu redor nada havia de perfeição. O abandono da criatura era o abandono que sentia a autora em sua existência. Ao Frankenstein se perceber como um monstro, falho, desfigurado, percebi eu que esse ponto seria uma possível interlocução com a obra, com o L O B O. Vozes dissonantes do passado. Animais mortos, criaturas buscando uma luz, através dos tempos. E dizendo a palavra amor, com a mesma ternura de um cuspe quente compartilhado de boca a boca. 

Das patas enormes e imundas do LOBO imaginei um banquete que nomeia nossa confusão, entre homens e mulheres. Essa confusão que os animais acompanham calmos, interagindo na medida das brechas da nossa linguagem. 

 

Cosé la vita senza l'amore?

[Carolina Bianchi]

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Carolina Bianchi Y Cara de Cavalo | São Paulo, Brasil 2020

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